“Da Costa Rica, país centro- americano onde estive recentemente a orientar um seminário sobre Desenvolvimento Sustentável, pouco mais conhecemos, na maioria dos casos, do que o nome que vemos nos rótulos das bananas e ananases do supermercado. É um exportador de produtos agrícolas, facilmente enquadrável no estereótipo dos países da zona, certamente pobre e atrasado, possivelmente corrupto e violento, um daqueles sítios em que a vida pouco vale e as ditaduras se sucedem regularmente.
Ficarão talvez surpresos se vos disser que o país em causa tem um sólido sistema de serviços sociais, que é raro ver alguém pedir na rua, que os 76 anos de esperança de vida são dos mais elevados do continente e que o nível de criminalidade é comparável ao nosso. Não tem Forças Armadas (acham que não faz falta) e é a democracia consolidada mais antiga de toda a América Latina. Alem disso, os produtos tropicais deixaram, há mais de duas décadas, de ser a espinha dorsal da economia.
Na sequência da derrocada dos preços do café, nos anos 70, a Costa Rica apostou a fundo, de forma visionária, no turismo de ambiente, de que é, provavelmente, o líder mundial. Mais de um terço do território nacional está presentemente enquadrado em Parques ou Reservas e os quase 2 milhões de turistas que visitam anualmente o país vão lá justamente para isso, para desfrutar da natureza e da biodiversidade, e não apenas para o sol-e-praia do costume. Claro, pagam bem, porque sol e praia há em muitos sítios (em Portugal, por exemplo…), mas quetzais, jaguares ou tartarugas são raros.
A que propósito vem esta estória? Bem, porque a Costa Rica fez há certo tempo, como país, o que algumas das mais inovadoras empresas mundiais só agora estão a fazer: leu de modo clarividente e pela positivas os desafios do nosso tempo, percebendo que há um modelo de desenvolvimento em vias de esgotamento e que precisamos de reinventar o futuro. É a chamada Economia Verde, um dos mais promissores caminhos para a saída de crise. (…)”
Luís Paulo (director de ESD/Qualidade e Sustentabilidade, CTT) para a revista Aposta, CTT, Abril 2010
1 de setembro de 2010
27 de agosto de 2010
"Pelo seu comportamento no terreno, as cabras são verdadeiros sapadores florestais, a preços baixos e sem precisarem de formação. Ecologicamente são unidades de reciclagem de vegetação que envolve risco de incêndios, em produtos de importância vital para as populações e economias locais".
Mário Contumélias, docente universitário,
"Jornal de Notícias", 27-08-2010
Mário Contumélias, docente universitário,
"Jornal de Notícias", 27-08-2010
16 de agosto de 2010
Redenção
I
Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento...
Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; psalmo misterioso;
Não serás tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?
Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.
E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!
II
Não choreis, ventos, árvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...
Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
D'esse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...
Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,
Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.
Antero de Quental, in "Sonetos"
Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento...
Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; psalmo misterioso;
Não serás tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?
Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.
E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!
II
Não choreis, ventos, árvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...
Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
D'esse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...
Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,
Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.
Antero de Quental, in "Sonetos"
2 de agosto de 2010
“Fará sentido falar de sustentabilidade ambiental?”
“Num momento como o que atravessamos, em que uma crise económica e social de âmbito internacional parece ter assentado arraiais mostrando pouca vontade de nos deixar, existe a tendência para concentrar os esforços nas áreas económica e social, colocando em segundo plano os aspectos ambientais. Tal tendência, embora compreensível à luz de uma forma tradicional de ver o mundo, demonstra as lacunas que persistem na compreensão do factor que é verdadeiramente a chave para o nosso desenvolvimento (desejadamente sustentável): o ambiente.
É verdade que precisamos de um rendimento para poder viver, mas esse rendimento não pode estar assente numa base imaterial ou sem especulações, como a situação actual do mundo tão bem retrata. Ora a base real do nosso emprego, do nosso rendimento, são os recursos ambientais. Sem eles não há actividade económica e sem actividade económica não é possível manter a estrutura social. Sem ar, sem água, sem solo, sem todos os recursos naturais que o ambiente nos proporciona todos os dias e de forma tão generosa, não é possível falarmos de bem-estar social e económico.
É claro que quando falamos de sustentabilidade falamos do equilíbrio entre as três dimensões – ambiental, económica e social. Mas também é cada vez mais obvio que é a dimensão ambiental que surge como factor limitante. Problemas como o das alterações climáticas, ou da escassez de água, são exemplos perfeitos de como factores ambientais podem influir de forma drástica nas potencialidades de uma dada região ou pais.
Não é tanto defender a sustentabilidade ambiental (conceito que pode ser visto como uma repetição com pouco sentido, uma vez que o conceito de sustentabilidade já contempla a dimensão ambiental), mas antes ter consciência da influência decisiva e única da área ambiental nas áreas sociais e económicas.
O contexto actual exige uma acção consciente, determinada e consequente, por parte de cada um. Não há tempo para esperar que alguém (seja esse alguém os governos, entidades publicas, empresas, etc.) dê o exemplo e mostre o caminho. Cada um pode ter um papel na construção de um futuro sustentável. Todos podemos e devemos ser agentes de mudança e promotores de um desenvolvimento sustentável nos diversos contextos da nossa vida, enquanto filhos, educadores, profissionais, amigos, vizinhos, etc. Abdicar desse papel equivalerá a contribuir directamente para a manutenção da abordagem que nos conduziu à presente situação de crise. E este é um cenário em que todos perdem e, logo, a evitar a todo custo.”
Susana Fonseca (Presidente da Direcção Nacional da Quercus) para a revista Aposta, CTT, Abril 2010
É verdade que precisamos de um rendimento para poder viver, mas esse rendimento não pode estar assente numa base imaterial ou sem especulações, como a situação actual do mundo tão bem retrata. Ora a base real do nosso emprego, do nosso rendimento, são os recursos ambientais. Sem eles não há actividade económica e sem actividade económica não é possível manter a estrutura social. Sem ar, sem água, sem solo, sem todos os recursos naturais que o ambiente nos proporciona todos os dias e de forma tão generosa, não é possível falarmos de bem-estar social e económico.
É claro que quando falamos de sustentabilidade falamos do equilíbrio entre as três dimensões – ambiental, económica e social. Mas também é cada vez mais obvio que é a dimensão ambiental que surge como factor limitante. Problemas como o das alterações climáticas, ou da escassez de água, são exemplos perfeitos de como factores ambientais podem influir de forma drástica nas potencialidades de uma dada região ou pais.
Não é tanto defender a sustentabilidade ambiental (conceito que pode ser visto como uma repetição com pouco sentido, uma vez que o conceito de sustentabilidade já contempla a dimensão ambiental), mas antes ter consciência da influência decisiva e única da área ambiental nas áreas sociais e económicas.
O contexto actual exige uma acção consciente, determinada e consequente, por parte de cada um. Não há tempo para esperar que alguém (seja esse alguém os governos, entidades publicas, empresas, etc.) dê o exemplo e mostre o caminho. Cada um pode ter um papel na construção de um futuro sustentável. Todos podemos e devemos ser agentes de mudança e promotores de um desenvolvimento sustentável nos diversos contextos da nossa vida, enquanto filhos, educadores, profissionais, amigos, vizinhos, etc. Abdicar desse papel equivalerá a contribuir directamente para a manutenção da abordagem que nos conduziu à presente situação de crise. E este é um cenário em que todos perdem e, logo, a evitar a todo custo.”
Susana Fonseca (Presidente da Direcção Nacional da Quercus) para a revista Aposta, CTT, Abril 2010
22 de julho de 2010
Olho por olho, dente por dente...
Não podendo permanecer inerte aos últimos acontecimentos do nosso país (nomeadamente o assunto que todos falam, o triplo homicídio de Torres Vedras), nem aos comentários que emergem destes mesmos acontecimentos, tenho reparado na crueldade e frieza das pessoas, não só do assassíno (como é obvio), mas também das populações indignadas (que não deixam de estar no seu direito) que saiem para ofender, insultar e até agredir os arguídos, e além disso proferir frases como esta que me chocou particularmente: "pessoas destas era atirá-las ao mar logo"...
E muito provavelmente estas pessoas vão todos os domingos à missa e estão muito convencidas que estão a ter a atitude correcta...
Ora vamos pensar logicamente. Se eu vejo as atitudes do meu próximo e não concordo com elas, vou fazer exactamente o mesmo acto que tanto condenei? Vou estar também eu a ter uma atitude condenável, não...? Ah, mas há uma coisa, aquele individuo magoou alguém e portanto merece sofrer... Não estaremos assim a ser piores que o próprio assassino? Pior sofrimento que ficar 20 anos preso? Alias, será essa a melhor forma de lidar com a situação? Excluir ou tratar e reabilitar?
A frieza não se resolve com mais frieza, desprezo e exclusão. Por alguma coisa, uma boa parte dos presos quando sai da cadeia volta a cometer os mesmos crimes. É sinal que não foi tratada a raiz do problema, e que realmente excluir não resolve nada...
E muito provavelmente estas pessoas vão todos os domingos à missa e estão muito convencidas que estão a ter a atitude correcta...
Ora vamos pensar logicamente. Se eu vejo as atitudes do meu próximo e não concordo com elas, vou fazer exactamente o mesmo acto que tanto condenei? Vou estar também eu a ter uma atitude condenável, não...? Ah, mas há uma coisa, aquele individuo magoou alguém e portanto merece sofrer... Não estaremos assim a ser piores que o próprio assassino? Pior sofrimento que ficar 20 anos preso? Alias, será essa a melhor forma de lidar com a situação? Excluir ou tratar e reabilitar?
A frieza não se resolve com mais frieza, desprezo e exclusão. Por alguma coisa, uma boa parte dos presos quando sai da cadeia volta a cometer os mesmos crimes. É sinal que não foi tratada a raiz do problema, e que realmente excluir não resolve nada...
15 de julho de 2010
"(...)Na minha escola, o ensino parou completamente a partir do início de Junho, embora continuássemos a ir lá. Os altifalantes difundiam aos gritos os editoriais do Diário do Povo, e a primeira página do jornal, que tinhamos de estudar todos os dias, era muitas vezes inteiramente ocupada por uma grande fotografia de Mao. Havia uma coluna diária com citações do Grande Líder. Ainda recordo os slogans em grandes letras negras que, depois de terem sido lidos vezes sem conta nas aulas, ficaram para sempre gravados nos mais profundos recessos do meu espírito:«O Presidente Mao é o Sol vermelho dos nossos corações!»«Os pensamentos de Mao Zedong são o nosso cabo salva-vidas!» «Esmaguagaremos quem se opuser ao Presidente Mao!» «Pessoas de todo o mundo amam o nosso Grande Líder o Presidente Mao!» Havia páginas e páginas de comentários laudatórios escritos por estrangeiros, e fotografias de multridões na Europa a tentar comprar as obras de Mao. O orgulho nacional chinês estava a ser mobilizado ao máximo para promover este culto da personalidade.(...)"
Este é só um pequeno excerto do livro Cisnes Selvagens de Jung Chang, que conta a história de 3 mulheres (a pópria autora, a sua mãe e a sua avó) reflectindo também a história tumultuosa da China no século XX.
Vale a pena. (Posso emprestar a quem quiser).
Este é só um pequeno excerto do livro Cisnes Selvagens de Jung Chang, que conta a história de 3 mulheres (a pópria autora, a sua mãe e a sua avó) reflectindo também a história tumultuosa da China no século XX.
Vale a pena. (Posso emprestar a quem quiser).
7 de julho de 2010
"A internet deixa-nos mais inteligentes"
Li hoje uma entrevista no Público a Don Tapscott, investigador, professor universitário, consultor e autor de vários livros. Achei muito curiosa a entevista e passo a citar alguns excertos. A entrevista pode ser lida na integra aqui.
«Há muita gente a defender que as novas tecnologias estão a criar cérebros preguiçosos, a diminuir a capacidade de atenção e de sociabilização. Há até quem tenha escrito que o Google nos está a tornar estúpidos. A sua posição é que todas estas afirmações são erradas?
Acredito que boa parte do impacto da revolução digital na forma como pensamos, colaboramos e trabalhamos ainda é desconhecido. Mas não concordo, em geral, com quem diz isso. Os dados simplesmente não sustentam essas afirmações. Os jovens são mais espertos do que nunca, o QI está ao nível mais alto de sempre, há mais estudantes a licenciarem-se.(...)
Na sua pesquisa não encontrou nenhuma consequência negativa do uso das tecnologias?
Há todo o tipo de problemas. Os jovens precisam de equilíbrio e às vezes perdem-no. A minha mulher é portuguesa e está a visitar família aqui. Um dos miúdos joga videojogos 40 horas por semana. É demasiado. A privacidade também é outro problema. Os jovens expõem demasiada informação.
E isso é um problema ou é simplesmente uma questão de divisão geracional sobre o que é a privacidade?
Há muitas pessoas que não vão conseguir o emprego dos seus sonhos porque alguém os pesquisou e os viu bêbados [numa foto] no Facebook, ou a dizer algo que não deviam.Cada um de nós está a criar uma versão virtual de si próprio. E este eu virtual sabe mais sobre nós do que nós próprios, porque nós não nos lembramos do que dissemos há anos. Isto cria uma situação em que a informação pode ser usada contra a pessoa (...)
Um dos seus elogios aos jovens tem a ver com a existência de valores fortes, nomeadamente políticos. Mas os jovens parecem alheados da política, nem sequer estão a votar muito.
O voluntariado de jovens, tanto do liceu como de universitários, está, em muitos países, num nível recorde. Desde angariar dinheiro para a luta contra o cancro, até voluntariado em partidos políticos, passando por manifestações em favor dos direitos humanos na China. Mas esse é um bom ponto: os dados mostram que os jovens estão a votar menos. Excepto nos EUA. A diferença é que os EUA tiveram um candidato que se dirigiu aos jovens [Barack Obama].
Isso foi por causa das ideias ou pelo facto de Obama ter usado todo o tipo de ferramentas on-line, desde o Twitter ao Facebook?
Ambos. Uma das razões pelas quais os jovens não estão envolvidos nas instituições democráticas é o facto de os modelos estarem errados. Temos um modelo de democracia com 100 anos: "Eu sou um político. Ouçam-me. Votem em mim. E depois vou dirigir-me durante quatro anos a receptores passivos." O cidadão vota, o político governa. Isso está bem para a minha geração. Eu cresci a ser um receptor passivo. Cresci a ver televisão 24 horas por semana, como todos os baby boomers. As escolas transmitiam-me informações e eu era um receptor passivo. Ia à igreja, onde era a mesma coisa. Cresci num modelo de família onde a comunicação funcionava só num sentido [dos pais para os filhos]. Mas estes jovens estão a crescer de forma interactiva, habituados a colaborar e a serem activos.
Muitas das instituições, como a escola e a igreja, ainda têm um modelo de comunicação unidireccional.
Isso está a mudar. Lentamente. Estamos aqui por causa desta iniciativa do e-escola. Isto não é uma questão tecnológica. Algumas pessoas pensam que sim, mas estão enganadas. É uma questão de mudar o modelo de pedagogia, afastá-lo do modelo de transmissão unidireccional. Todas as instituições precisam de mudar: a democracia, a aprendizagem nas escolas, os modelos de trabalho. (...)
Não há o risco de desperdiçarem tempo com essas ferramentas?
O tempo que os jovens passam online não é roubado ao tempo que passam com os amigos, ou em que estão a fazer os trabalhos de casa ou a trabalhar no emprego. É roubado, sobretudo, à televisão. É isso que os dados mostram. Há quem diga que os jovens ainda vêem demasiada televisão. Mas estão a ver menos e estão a ver de forma diferente. Têm o computador ligado e a televisão é música ambiente, ao fundo. Há quem confunda o monitor da televisão com o monitor do computador. Mas têm efeitos opostos em termos de desenvolvimento do cérebro.Se os jovens estão no local de trabalho a desperdiçar tempo no Facebook, isso não é um problema de tecnologia. É um problema de fluxos de trabalho, motivação, supervisão. A minha geração não entende a cultura de colaboração, não entende as novas ferramentas e não entende a nova geração. Os blogues, redes sociais, wikis são o novo sistema operativo das empresas.
(...) Eu comecei a usar computadores quando tinha 25 anos. O período crítico é dos 8 aos 18. E a forma como se passa o tempo nessa idade é, a seguir aos genes, a variável mais importante a determinar o funcionamento do cérebro. Quem passa 24 horas por semana a ser um receptor passivo de televisão tem um determinado tipo de cérebro. Quem passa esse tempo a ser um utilizador activo de informação, tem outro tipo de cérebro, que é um cérebro melhor, mais apropriado ao século XXI.»
«Há muita gente a defender que as novas tecnologias estão a criar cérebros preguiçosos, a diminuir a capacidade de atenção e de sociabilização. Há até quem tenha escrito que o Google nos está a tornar estúpidos. A sua posição é que todas estas afirmações são erradas?
Acredito que boa parte do impacto da revolução digital na forma como pensamos, colaboramos e trabalhamos ainda é desconhecido. Mas não concordo, em geral, com quem diz isso. Os dados simplesmente não sustentam essas afirmações. Os jovens são mais espertos do que nunca, o QI está ao nível mais alto de sempre, há mais estudantes a licenciarem-se.(...)
Na sua pesquisa não encontrou nenhuma consequência negativa do uso das tecnologias?
Há todo o tipo de problemas. Os jovens precisam de equilíbrio e às vezes perdem-no. A minha mulher é portuguesa e está a visitar família aqui. Um dos miúdos joga videojogos 40 horas por semana. É demasiado. A privacidade também é outro problema. Os jovens expõem demasiada informação.
E isso é um problema ou é simplesmente uma questão de divisão geracional sobre o que é a privacidade?
Há muitas pessoas que não vão conseguir o emprego dos seus sonhos porque alguém os pesquisou e os viu bêbados [numa foto] no Facebook, ou a dizer algo que não deviam.Cada um de nós está a criar uma versão virtual de si próprio. E este eu virtual sabe mais sobre nós do que nós próprios, porque nós não nos lembramos do que dissemos há anos. Isto cria uma situação em que a informação pode ser usada contra a pessoa (...)
Um dos seus elogios aos jovens tem a ver com a existência de valores fortes, nomeadamente políticos. Mas os jovens parecem alheados da política, nem sequer estão a votar muito.
O voluntariado de jovens, tanto do liceu como de universitários, está, em muitos países, num nível recorde. Desde angariar dinheiro para a luta contra o cancro, até voluntariado em partidos políticos, passando por manifestações em favor dos direitos humanos na China. Mas esse é um bom ponto: os dados mostram que os jovens estão a votar menos. Excepto nos EUA. A diferença é que os EUA tiveram um candidato que se dirigiu aos jovens [Barack Obama].
Isso foi por causa das ideias ou pelo facto de Obama ter usado todo o tipo de ferramentas on-line, desde o Twitter ao Facebook?
Ambos. Uma das razões pelas quais os jovens não estão envolvidos nas instituições democráticas é o facto de os modelos estarem errados. Temos um modelo de democracia com 100 anos: "Eu sou um político. Ouçam-me. Votem em mim. E depois vou dirigir-me durante quatro anos a receptores passivos." O cidadão vota, o político governa. Isso está bem para a minha geração. Eu cresci a ser um receptor passivo. Cresci a ver televisão 24 horas por semana, como todos os baby boomers. As escolas transmitiam-me informações e eu era um receptor passivo. Ia à igreja, onde era a mesma coisa. Cresci num modelo de família onde a comunicação funcionava só num sentido [dos pais para os filhos]. Mas estes jovens estão a crescer de forma interactiva, habituados a colaborar e a serem activos.
Muitas das instituições, como a escola e a igreja, ainda têm um modelo de comunicação unidireccional.
Isso está a mudar. Lentamente. Estamos aqui por causa desta iniciativa do e-escola. Isto não é uma questão tecnológica. Algumas pessoas pensam que sim, mas estão enganadas. É uma questão de mudar o modelo de pedagogia, afastá-lo do modelo de transmissão unidireccional. Todas as instituições precisam de mudar: a democracia, a aprendizagem nas escolas, os modelos de trabalho. (...)
Não há o risco de desperdiçarem tempo com essas ferramentas?
O tempo que os jovens passam online não é roubado ao tempo que passam com os amigos, ou em que estão a fazer os trabalhos de casa ou a trabalhar no emprego. É roubado, sobretudo, à televisão. É isso que os dados mostram. Há quem diga que os jovens ainda vêem demasiada televisão. Mas estão a ver menos e estão a ver de forma diferente. Têm o computador ligado e a televisão é música ambiente, ao fundo. Há quem confunda o monitor da televisão com o monitor do computador. Mas têm efeitos opostos em termos de desenvolvimento do cérebro.Se os jovens estão no local de trabalho a desperdiçar tempo no Facebook, isso não é um problema de tecnologia. É um problema de fluxos de trabalho, motivação, supervisão. A minha geração não entende a cultura de colaboração, não entende as novas ferramentas e não entende a nova geração. Os blogues, redes sociais, wikis são o novo sistema operativo das empresas.
(...) Eu comecei a usar computadores quando tinha 25 anos. O período crítico é dos 8 aos 18. E a forma como se passa o tempo nessa idade é, a seguir aos genes, a variável mais importante a determinar o funcionamento do cérebro. Quem passa 24 horas por semana a ser um receptor passivo de televisão tem um determinado tipo de cérebro. Quem passa esse tempo a ser um utilizador activo de informação, tem outro tipo de cérebro, que é um cérebro melhor, mais apropriado ao século XXI.»
Subscrever:
Mensagens (Atom)